De cripto à infraestrutura financeira: mudança das stablecoins exige novos conhecimentos dos profissionais

De cripto à infraestrutura financeira: mudança das stablecoins exige novos conhecimentos dos profissionais

Com uso crescente em pagamentos, liquidação e operações internacionais, tecnologia amplia a demanda por conhecimentos em blockchain, regulação e novos sistemas financeiros

As stablecoins começam a ocupar um espaço que vai além dos investimentos em criptomoedas. Desenvolvidos para manter valor estável e geralmente vinculados a moedas como o dólar, esses ativos digitais estão sendo incorporados a operações de pagamento, liquidação financeira, transferências internacionais e gestão de recursos. A mudança traz também um desafio para a educação profissional: preparar pessoas para compreender um sistema que combina blockchain, finanças, regulação e negócios.

O movimento pode ser observado entre grandes companhias de pagamentos. Em setembro de 2026, a Visa informou que o volume de liquidação com stablecoins em sua rede havia superado o ritmo anualizado de US$ 20 bilhões, mais de 15 vezes o registrado um ano antes.  A Mastercard também ampliou sua infraestrutura para permitir liquidações com stablecoins reguladas, inclusive aos finais de semana e feriados, e passou a apontar aplicações em pagamentos B2B internacionais, remessas, pagamentos a terceiros, liquidação e operações de tesouraria.

Nesse cenário, entender stablecoins deixa de ser um conhecimento restrito a quem acompanha o mercado de criptoativos. O tema passa a fazer parte do repertório de profissionais ligados a finanças, administração, tecnologia e comércio exterior, além de áreas que trabalham com pagamentos e movimentação internacional de recursos.

Para Cleverson Pereira, head educacional e criador da AVO, a mudança amplia o conjunto de competências necessárias para acompanhar a transformação do sistema financeiro. Mais do que saber comprar ou negociar um ativo digital, é preciso compreender a lógica da tecnologia, suas aplicações práticas, os riscos envolvidos e o ambiente regulatório em que essas operações estão inseridas.

“Durante muito tempo, falar de blockchain e stablecoins em sala de aula significava discutir principalmente investimentos e o mercado cripto. Quando essa tecnologia começa a entrar em pagamentos, tesouraria e operações internacionais, o conhecimento necessário muda. O profissional precisa entender não apenas o ativo, mas a infraestrutura financeira que existe por trás dele”, avalia.

Da especulação à infraestrutura

Apesar do avanço em novas aplicações, as stablecoins ainda mantêm forte ligação com o mercado de ativos digitais. O Banco de Compensações Internacionais (BIS) estimou aproximadamente US$ 35 trilhões em transações com stablecoins em 2025, dos quais cerca de US$ 390 bilhões estariam relacionados a pagamentos.

Os números ajudam a dimensionar uma transição ainda em curso. Em vez de significar uma saída do universo cripto, o cenário aponta para a ampliação dos usos das stablecoins. Empresas e instituições financeiras passam a explorar a tecnologia como um novo “trilho” para movimentar dinheiro, inclusive em operações que podem funcionar continuamente, sem a mesma limitação dos horários bancários tradicionais.

A transformação também muda o tipo de conhecimento exigido. Conceitos como blockchain, tokenização, custódia, liquidação, compliance e funcionamento das stablecoins passam a dialogar diretamente com temas de gestão financeira e meios de pagamento.

Regulação entra na sala de aula

No Brasil, o avanço regulatório aumenta a importância dessa formação. O Banco Central passou a enquadrar determinadas atividades envolvendo ativos virtuais na regulamentação do mercado de câmbio, incluindo pagamentos ou transferências internacionais realizados com esses ativos.

As novas regras aproximam o tema de questões que já fazem parte da rotina de instituições financeiras e empresas, como prevenção à lavagem de dinheiro, supervisão, autorização, gestão de riscos e operações internacionais.

Para a educação profissional, isso significa que ensinar apenas a dinâmica de valorização e negociação de criptomoedas oferece uma visão limitada de um mercado que se torna mais complexo. A formação precisa acompanhar não somente os novos ativos, mas também as mudanças nos sistemas utilizados para movimentar recursos.

“Para a educação, o desafio é conectar conhecimentos que antes apareciam separados. Blockchain não pode ser ensinada sem discutir regulação, riscos e aplicações empresariais, assim como profissionais de finanças precisam entender cada vez mais a tecnologia que sustenta novos meios de movimentação de recursos”, esclarece o especialista.

A discussão é particularmente relevante para estudantes e profissionais interessados em atuar em bancos, fintechs, meios de pagamento, tecnologia financeira e empresas com operações internacionais. À medida que soluções baseadas em blockchain passam a funcionar nos bastidores dos serviços financeiros, compreender seu funcionamento tende a ganhar espaço no repertório técnico necessário para analisar processos, riscos e oportunidades do setor.

A mudança também reposiciona o debate educacional sobre criptoativos. Em vez de concentrar a discussão apenas em investir ou não em criptomoedas, o avanço das stablecoins abre espaço para uma questão mais ampla: como novas tecnologias estão alterando a maneira como empresas e instituições movimentam dinheiro.

“O mercado está mostrando que conhecer criptoativos não é necessariamente aprender a especular. Há uma camada de tecnologia, regulação, pagamentos e negócios que precisa fazer parte da formação de quem pretende trabalhar no sistema financeiro dos próximos anos”, conclui.