Debate sobre governança da IA avança, mas empresas ainda erram na adoção da tecnologia, aponta especialista

Debate sobre governança da IA avança, mas empresas ainda erram na adoção da tecnologia, aponta especialista

O discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Cúpula de Impacto da Inteligência Artificial, em Nova Délhi, recolocou no centro do debate temas como soberania digital, regulação das big techs e o risco de aprofundamento das desigualdades globais com o avanço da tecnologia.

Enquanto líderes discutem regras e governança internacional, uma dimensão mais imediata ainda passa despercebida: a forma como empresas brasileiras estão incorporando a inteligência artificial no dia a dia.

Para o especialista em tecnologia e dados Rodrigo Espínola, CEO da Dalton Lab, a adoção corporativa da IA ocorre, em muitos casos, sem estratégia clara e de forma fragmentada.

Segundo ele, há uma confusão comum entre uso individual de ferramentas e transformação organizacional. “Muitos executivos acreditam que, porque suas equipes utilizam ferramentas generativas, a empresa já está trabalhando com inteligência artificial. Na prática, isso é ganho de produtividade pessoal, não mudança estrutural”, afirma.

Espínola avalia que essa percepção cria uma falsa sensação de avanço e pode levar a decisões equivocadas. “A tecnologia está presente, mas sem integração aos processos e sem preparo das pessoas, o impacto real no negócio é limitado”, diz.

O especialista destaca que o risco não está apenas na velocidade da adoção, mas na forma como ela ocorre. “A mesma IA que amplia a capacidade humana pode, quando mal aplicada, reduzir postos de trabalho sem gerar valor. O problema não é a ferramenta — é a ausência de método”, explica.

Na visão dele, a sequência correta para a transformação passa primeiro por redesenho de processos, depois capacitação das equipes e, só então, escolha das soluções tecnológicas. A inversão dessa lógica, afirma, é hoje um dos erros mais caros para organizações.

Espínola também ressalta que a transformação por IA não deve ser tratada como um projeto restrito à área de tecnologia. “Estamos falando de uma mudança de modelo operacional. O papel da IA é assumir tarefas repetitivas para liberar as pessoas para atividades estratégicas, criativas e de decisão”, diz.

Ele chama esse movimento de “organização agêntica”, conceito que descreve empresas nas quais agentes de inteligência artificial passam a atuar como parte estruturante das equipes, com funções definidas, métricas e supervisão humana.

Nesse cenário, o debate levantado por Lula sobre governança e soberania ganha um reflexo direto dentro das companhias. Para o especialista, maturidade em IA não se adquire apenas com a compra de ferramentas. “É uma capacidade construída ao longo do tempo — e continua tendo o ser humano no centro, não por discurso, mas porque é o que funciona na prática”, conclui.

Foto Crédito: Divulgação