Sua empresa sabe quantas IAs trabalham para ela? Uso descentralizado acende alerta para novo desafio de gestão

Sua empresa sabe quantas IAs trabalham para ela? Uso descentralizado acende alerta para novo desafio de gestão

Com agentes acessando sistemas, executando tarefas e consumindo orçamento, empresas precisam ampliar o controle sobre ferramentas, modelos e automações de inteligência artificial

Quantas inteligências artificiais trabalham hoje para uma empresa? A pergunta ganha relevância à medida que ferramentas e agentes de IA deixam de atuar apenas como recursos de produtividade individual e passam a integrar processos corporativos.

Entre soluções contratadas por diferentes departamentos, funcionalidades incorporadas a softwares, agentes desenvolvidos internamente e aplicações adotadas diretamente pelos funcionários, uma companhia pode ter dificuldade para mapear quantas IAs estão presentes em sua operação.

O cenário abre espaço para o chamado Shadow AI, termo usado para descrever a adoção de ferramentas de inteligência artificial fora da governança formal da organização, em movimento semelhante ao Shadow IT.

“A dor operacional chega antes da política corporativa. O colaborador descobre que consegue produzir um relatório mais rápido, analisar um documento, responder a clientes ou organizar informações usando IA e começa a fazê-lo antes que a organização defina regras para isso”, explica Fábio Tiepolo, CEO da StaryaAI.

O problema ganha outra dimensão quando essas ferramentas passam a acessar dados e sistemas corporativos, executar tarefas ou interferir em decisões. “Quando agentes passam a acessar sistemas, executar tarefas, consumir orçamento e tomar decisões, a empresa precisa saber quantos existem, quem é responsável por eles, quais dados acessam, quais modelos utilizam e quanto custam”, afirma Tiepolo.

O inventário precisa ir além do ChatGPT

Mapear a presença da IA em uma organização não significa apenas contabilizar assinaturas de ferramentas conhecidas. O levantamento deve incluir assistentes personalizados, agentes desenvolvidos internamente, automações, APIs de grandes modelos de linguagem (LLMs) e recursos de inteligência artificial incorporados a softwares corporativos.

Para Vinícius Reis, CTO da StaryaAI, o objetivo é compreender quais capacidades foram colocadas em operação e os riscos associados a elas. “O ponto não é inventariar marcas. É inventariar capacidade e risco”, resume.

Para cada aplicação, a empresa deveria identificar o responsável, a finalidade, os fornecedores e modelos utilizados, os dados e sistemas acessados, o nível de autonomia, o custo e as condições de auditoria. Sem essa visão, diferentes departamentos podem formar “ilhas” de IA, ampliando riscos relacionados à segurança, ao vazamento de dados, aos custos e a decisões equivocadas.

Dados, custos e autonomia entram na conta

A adoção descentralizada pode fazer com que informações corporativas sejam processadas por diferentes modelos sem uma visão completa desse fluxo. Dados de clientes, informações pessoais, contratos, documentos internos, dados financeiros e comerciais, propriedade intelectual e informações reguladas estão entre os conteúdos que exigem maior controle.

O impacto financeiro também merece atenção. Áreas distintas podem contratar soluções semelhantes, enquanto se acumulam despesas com modelos, APIs, integrações, infraestrutura e manutenção. Como parte desses custos varia conforme o consumo e o volume de chamadas, Tiepolo defende a adoção de práticas de FinOps, voltadas à gestão dos custos de tecnologia, também na governança de IA.

“A empresa precisa saber quem consome, quanto consome, qual modelo está sendo usado e qual resultado aquele custo está produzindo. Sem essa visão, é perfeitamente possível ter uma organização investindo muito em IA sem saber se está comprando capacidade ou apenas duplicando ferramentas”, afirma Tiepolo.

Outro ponto é definir até onde um agente pode agir sozinho. Uma ferramenta utilizada para organizar o trabalho individual tem impacto diferente de um agente autorizado a consultar um CRM, alterar registros, enviar mensagens em nome da empresa ou interagir com clientes. Quanto maior o impacto de uma ação e menor a possibilidade de reversão, menor deve ser a autonomia concedida.

A rastreabilidade também se torna essencial. Se um agente envia uma informação incorreta, acessa um dado indevido ou toma uma decisão equivocada, a empresa deveria conseguir identificar os dados utilizados, os sistemas consultados, o modelo envolvido, as regras vigentes e a sequência de ações executadas. “Autonomia sem rastreabilidade não é governança. É apenas delegação de risco”, diz Tiepolo.

Como fazer um “censo de IAs”

O diagnóstico pode começar pelo levantamento de ferramentas, agentes, modelos, APIs e automações utilizados nas diferentes áreas. Entre as principais perguntas estão: quantos estão em uso ou planejamento; quem responde por cada um; qual processo atendem; quais dados e sistemas acessam; qual o nível de autonomia; se apenas recomendam ou também executam ações; quanto custam; e se existem logs e mecanismos de auditoria.

Esse levantamento permite identificar duplicidades, riscos, custos e dependências e transformar a discussão sobre IA em um mapa operacional da companhia. À medida que agentes assumem mais tarefas, saber quais sistemas de IA estão em funcionamento tende a se tornar parte da gestão da infraestrutura corporativa. “A vantagem competitiva não estará em possuir o maior número de agentes. Estará em conseguir orquestrar esses agentes, dados e integrações dentro de uma arquitetura com segurança, rastreabilidade, custo controlado e resultado mensurável”, afirma Tiepolo.

Para o executivo, a falta desse controle pode criar uma modalidade de dívida tecnológica, com agentes duplicados, custos invisíveis, dados espalhados, dependência de diferentes fornecedores e decisões difíceis de auditar. “IA está deixando de ser ferramenta e virando infraestrutura operacional. Quando isso acontece, inventário e governança deixam de ser burocracia. Viram parte da gestão do negócio”, conclui.