O abandono na infância: quando o cérebro adulto ainda carrega as marcas da dor
Por Dra. Valéria Modestto Barbosa – Médica Neurologista e Neuropediatra
Uma criança abandonada pelos pais pode crescer, conquistar independência, construir uma família e alcançar sucesso profissional. Mas será que seu cérebro conseguiu superar as marcas daquela ausência?
Em minha trajetória clínica, encontro adultos que, apesar de suas conquistas, continuam emocionalmente aprisionados às experiências da infância. São pessoas que vivem com medo da rejeição, insegurança afetiva, ansiedade, impulsividade e dificuldades para estabelecer vínculos saudáveis.
O que muitos desconhecem é que o abandono parental pode deixar marcas não apenas na memória emocional, mas também no desenvolvimento dos circuitos cerebrais.
Durante a infância, o cérebro atravessa um intenso processo de maturação neurofisiológica. O sistema límbico, responsável por importantes funções emocionais, desenvolve conexões com o córtex pré-frontal, região essencial para o planejamento, o controle dos impulsos e a regulação das emoções.
Quando uma criança é submetida ao abandono, à negligência afetiva ou ao estresse emocional prolongado, esses processos podem sofrer interferências, comprometendo a integração entre os circuitos emocionais e os mecanismos de autorregulação.
Na avaliação eletroencefalográfica quantitativa de alguns adultos com histórias de abandono, observo a persistência de ritmos lentos, especialmente associações teta-alfa e teta-delta, em regiões relacionadas às redes de processamento emocional e controle executivo.
Esses achados permitem investigar características da organização elétrica cerebral e levantar hipóteses sobre diferenças na maturação funcional desses circuitos. Sua interpretação exige correlação com a história clínica, pois os ritmos isolados não identificam a causa das alterações.
O que me chama a atenção é encontrar adultos intelectualmente desenvolvidos, profissionalmente bem-sucedidos, mas com enormes dificuldades para regular suas respostas emocionais.
É como se a maturidade cronológica não tivesse sido acompanhada, em todos os aspectos, pela mesma eficiência de integração dos circuitos cerebrais.
A neurociência demonstra que experiências adversas precoces podem modificar trajetórias do desenvolvimento cerebral, particularmente dos sistemas envolvidos na resposta ao estresse, no reconhecimento de ameaças e na regulação emocional.
Entretanto, existe uma possibilidade extraordinária: a neuroplasticidade. O cérebro conserva a capacidade de reorganizar conexões e modificar padrões funcionais ao longo da vida.
Compreender essas alterações abre caminhos para intervenções individualizadas, capazes de favorecer a regulação emocional e a qualidade de vida.
O abandono pode acontecer na infância, mas suas consequências podem atravessar décadas.
Por isso, diante de um adulto emocionalmente ferido, precisamos olhar além dos sintomas e perguntar: que experiências marcaram o desenvolvimento desse cérebro?
Porque crescer não significa, necessariamente, ter superado aquilo que um dia nos faltou.
Dra. Valéria Modestto Barbosa é médica neurologista e neuropediatra, autora de Na contramão dos diagnósticos.


